Página
em construção *
Para realizar grandes sonhos [ necessitamos
grandes sonhos. [Hans
Seyle]
A influência de Vargas e de outros rio-grandenses, dirigindo o Brasil na maior parte da
história recente, pode ser mensurada pelo bairrismo anti-gaúcho que gerou nos enciumados... hehehehhehe
Mas
larga desse bairrismo, ô bagual.
Entenda
os gaúchos e sua história.
Começa
por te
ambientar, historicamente...
Conheça a fantástica obra de
Érico Veríssimo, O
Tempo e o Vento, segue rápido roteiro, para te facilitar a vida, ô vivente:
1. O Continente: Substrato histórico: os últimos anos das Missões
Jesuíticas (Sete Povos). Uma índia
grávida, estuprada por bandeirantes, aparece nas Missões, dá a luz a um menino
mestiço e morre. O garoto é batizado de Pedro
e se torna protegido do padre Alonzo,
jesuíta espanhol que, mais tarde, o presenteará com um punhal de cabo e bainha
de prata, punhal este que atravessará os duzentos anos de O tempo e o vento, como um símbolo da bravura de seus
portadores. Pedro, à medida que
cresce, é dominado por uma visão mística da existência: Fala com
a Virgem Maria e profetiza que Sepé Tiaraju vai morrer. Tem grandes
pendores musicais e toca flauta admiravelmente. Quando as tropas
luso-espanholas, em função do Tratado de Madri, derrotam os exércitos indígenas
e aproximam-se para destruir os Sete Povos, Pedro monta num cavalo baio
e foge sem destino. A estória ambienta:
a) A confluência da cultura mística católica e
a consciência mágica dos índios na figura de
Pedro, explicando a sua tendência a visões e premonições.
b) A criação de uma origem mitológica para o
estabelecimento da sociedade rio-grandense, na medida em
que Pedro, mais tarde, fecundará Ana
Terra, dando início - em termos simbólicos - a um tipo local, o gaúcho. É
visível - neste romance de "fundação" de um mundo regional - a
influência de Iracema, de José de
Alencar
2. Ana Terra narra a conquista do
território por famílias paulistas e a fundação dos primeiros povoados. Duração:
1777 a 1811. Ana Terra descobre, nas terras de seu pai, Maneco Terra, um índio ferido, de tez relativamente clara (Pedro Missioneiro). Olhado com
desconfiança pelos Terra, o índio se recupera e acaba permanecendo na fazenda
como uma espécie de agregado. Surpreende a todos com habilidades campeiras,
repertório de histórias e lendas e capacidade de tocar flauta. Na primeira vez
que Pedro executa uma música, Ana é tomada de grande emoção:
"Sentiu então uma
tristeza enorme, um desejo amolecido de chorar. Ninguém ali na estância tocava
nenhum instrumento. Ana não se lembrava de jamais ter ouvido música naquela
casa."
A solidão de Ana Terra e
o desejo que atormenta seu corpo levam-na a desenvolver uma paixão
contraditória pelo estranho:
"E ali, no calor do
meio-dia, ao som daquela música, voltava-lhe como nunca o desejo de homem.
Pensava nas cadelas e tinha nojo de si mesma."
Até que, por fim, ela termina por se entregar ao missioneiro.
Desses furtivos encontros amorosos resulta a gravidez da moça, descoberta pela
mãe e também pelo pai, que, escondido, ouve a confissão da filha. Em seguida, Horácio e Antônio, irmãos de Ana, arrebatam Pedro Missioneiro e carregam-no para um ermo, a fim de
assassiná-lo, confirmando a visão do próprio índio, que antevira em sonho a sua
morte.
Pedrinho (Pedro Terra) nasce e, a exemplo de sua mãe, recebe total desprezo
do avô, Maneco, e dos tios criminosos. Ana, por seu turno, tem o coração
definitivamente seco em relação a seus familiares. A única pessoa que estima é
a mãe, D. Henriqueta. E quando esta morre, Ana
Terra não tem pena, porque "a mãe finalmente tinha deixado de ser
escrava". Alguns anos mais tarde, o avô se reconcilia com o neto, Pedro, por
ocasião do plantio do trigo, velho sonho de Maneco Terra. Sonho de que o menino compartilha emocionadamente.
Um ataque de bandidos castelhanos termina com a permanência de Ana Terra na fazenda do pai. Antes do
massacre, ela esconde o filho, a cunhada, mulher de Antônio, e sua filha numa
cova no meio do mato e volta para casa, onde será sucessivas vezes estuprada
pelos bandoleiros.
Mortos todos os homens da casa, Ana Terra resolve partir com as duas crianças sobreviventes e a cunhada.
Viajam de carreta com uma família em busca de um lugarejo (Santa Fé) que acaba de ser fundado por um "coronel", Ricardo Amaral, e constituído até então
por apenas cinco ranchos. Ana constrói o seu. E com o passar do tempo -
valendo-se de uma tesoura de podar - torna-se a parteira do povoado.

Ilustração: Herrmann Wendroth
Começam as guerras platinas e Pedro
Terra, já um rapagão de vinte anos, é convocado para lutar. Ana chega a pedir
ao coronel Amaral que não leve o filho, mas o velho estancieiro a repele.
Também começa a terrível espera das mulheres, que é um dos aspectos centrais do
romance de E. V.. Elas esperam pelos
seus homens que estão sempre partindo para os confrontos militares que
delimitam a vida na província desde suas origens até, pelo menos, o final do
século XIX. O episódio finaliza com a segunda espera de Ana, já que Pedro
retornara de sua primeira experiência bélica e - alguns anos depois - fora
novamente convocado.
Ana Terra é o capítulo definitivo da obra O tempo e o vento. Além da representatividade histórica da
personagem (símbolo da mulher rio-grandense), devemos atentar para:
a) Seu erotismo, ampliado pela solidão e pela sensação de
infelicidade de viver naquele mundo perdido que é a fazenda do pai. Daí a sua
entrega corpórea a Pedro Missioneiro.
b) A consciência natural (e quase a-histórica) do tempo. Este é
determinado primitivamente pelo ritmo das estações, assim como os dias o são
pelo nascer e pelo desaparecer do sol. Não há calendários e as referências aos
anos são imprecisas. Assim, o tempo está relacionado indissoluvelmente à
natureza:
"Era assim que o tempo
se arrastava, o sol nascia e se sumia, a lua passava por todas as fases, as
estações iam e vinham, deixando sua marca nas árvores, na terra, nas coisas e
nas pessoas."
c) A sua garra, obstinação e capacidade de resistência. A forma que
sobrevive interiormente à violência do estupro dos bandidos castelhanos indica
não apenas resignação ao destino, mas estupenda força subjetiva e crença na
vida. No limite mais dramático e profundo, estes serão os valores de todas as
mulheres no romance.
d) A profissão de parteira que Ana adota como uma metáfora da vida,
enquanto a seu redor guerras e revoluções campeiam com todo um tributo à
destruição e à morte. Decorre daí também o seu ardente pacifismo e seu
entranhado ódio à violência em que os homens parecem se comprazer.
e) A relação que Ana estabelece entre o vento e as coisas
importantes de sua vida, a associação entre as "noites de vento, noite dos
mortos" e, por fim, a própria ligação do vento com a memória feminina.
Esta memória - açulada pela natureza - é ao mesmo tempo o tormento, o consolo e
a arma de defesa das mulheres contra a falta de sentido da existência.
3. Um certo Capitão Rodrigo
Substrato histórico: Emergência e
apogeu dos gaudérios. A Revolução Farroupilha. A chegada dos
primeiros imigrantes alemães. Duração: 1828 a 1836
Gaudério de bela figura física e muito carisma pessoal, Rodrigo Cambará conquista a vila de
Santa Fé com seus ditos espirituosos: "Buenas e
me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!" Ou ainda: "Cambará
macho não morre na cama!"
Juvenal, filho de Pedro Terra,
é o primeiro a simpatizar com o estranho. Bibiana,
sua irmã (e reprodução da avó, Ana Terra)
logo se apaixonará pelo forasteiro, reafirmando sua indiferença a Bento Amaral, filho do coronel que
manda no povoado. Já Pedro Terra,
homem reservado e circunspecto, detesta desde o início aquele gaudério
anarquista, cujo único propósito na vida parece ser o de atender aos seus
impulsos básicos, especialmente os guerreiros e os eróticos.
O Coronel Ricardo Amaral Neto exige que Rodrigo parta de Santa Fé,
mas este se recusa. Em seguida, o alegre capitão desentende-se - por causa de Bibiana - com Bento Amaral. No duelo que se segue, Rodrigo Cambará consegue colocar sua marca à faca na cara do rival,
não conseguindo concluir a perna do R. Vencido e humilhado, Bento atira com
arma de fogo, ferindo gravemente o Capitão. Este oscila entre a vida e a morte
e, nessas circunstâncias, solidifica sua amizade com o padre Lara que vai ajudá-lo e tentar convertê-lo ao cristianismo.
Rodrigo se safa da morte, tão ateu quanto antes, mas completamente apaixonado
(desejo físico, acima de tudo) por Bibiana.
Juvenal e o padre auxiliam-no em sua
tarefa, facilitada pelo ardoroso sentimento que a moça (tem vinte e dois anos)
nutre por ele. Com a visível discordância de Pedro Terra, Rodrigo e Bibiana acabam se casando no Natal de
1829.
Após os ardores dos primeiros meses, Rodrigo começa a se entediar.
A nova profissão (tornara-se "bodegueiro" em sociedade com o cunhado Juvenal) lhe parece intolerável. Os
próprios cheiros da venda lhe causam aborrecimento. Mesmo os filhos que vão
nascendo - Anita, Bolívar e Leonor - não lhe restituem a perdida alegria de viver. Trai Bibiana, torna-se um jogador e um
bêbado, recusa-se a voltar para casa quando o chamam por causa da doença da
filha Anita. Ao retornar, enfim, já
pela madrugada encontra a menina morta. Mesmo assim, Bibiana continua apaixonada pelo "seu" capitão.
A chegada dos primeiros alemães em Santa Fé, no ano de 1833, é o
grande assunto da vila. Rodrigo obviamente enlouquece por uma jovem imigrante,
Helga Kunz, e com ela se relaciona, mas para sua surpresa a alemã abandona-o,
partindo para São Leopoldo a fim de casar-se com um conterrâneo alemão.
Em 1835 estoura a Revolução Farroupilha. Rodrigo, que é amigo de
Bento Gonçalves, adere imediatamente e desaparece de Santa Fé. Em 1836, o
Capitão a frente de tropas revolucionárias retorna para enfrentar os Amarais e
sua gente, que permaneceram fiéis ao Império. Antes do cerco ao casarão dos
inimigos, Rodrigo ama pela última vez sua esposa Bibiana. Depois parte para o combate. Os farroupilhas triunfam, mas
no ataque o Capitão Rodrigo encontra a morte. O episódio termina no dia de
Finados, quando Bibiana vai ao
cemitério com seus dois filhos:
"Ergueu Leonor nos braços, segurou a mão de Bolívar, lançou um último olhar para a
sepultura de Rodrigo e achou que afinal de contas tudo estava bem. Podiam dizer
o que quisessem, mas a verdade era que o Capitão Cambará tinha voltado para
casa."
Note em
Um Certo
Capitão Rodrigo
a) O fato do personagem central ter se transformado - mesmo que não
fosse a intenção de E. V. - no símbolo do gaúcho, com seu misto de bravura,
fanfarronice, generosidade e pensamento libertário. Talvez os gaudérios da
época não tivessem o mesmo carisma. Documentos da época pintam esses homens
"sem rei nem lei" quase como párias. No caso de Rodrigo, contudo,
"a mentira histórica vira verdade artística".
b) A paixão instintiva (próxima do mundo animal) que o Capitão experimenta
pela vida e seus prazeres, especialmente os da cama e da mesa. Apesar disso, há
em sua conduta um substrato ético que o leva, por exemplo, a se posicionar
contra os tiranos e a respeitar sua mulher, Bibiana.
c) O forte sopro épico que percorre todo o episódio. A exemplo de
Aquiles e de outros heróis das epopéias gregas, Rodrigo Cambará acredita que só a ação guerreira dá sentido à vida
dos homens. A domesticidade e o cotidiano são os maiores inimigos desses
personagens, que só se sentem felizes no fragor das batalhas e das conquistas.
Antológica é a cena do Capitão, transformado em dono de venda:
"Rodrigo foi até a porta
(da venda) e olhou para o alto. O vento trazia um cheiro bom de capim e,
aspirando-o, ele como que se embriagava. O fedor de cebola, alho e banha que
havia dentro de casa nauseava-o. Meter-se naquele negócio tinha sido a maior
estupidez de sua vida."
d) A criação de um modelo de Cambará: o macho audacioso, mulherengo
e sempre metido em revoluções. O Dr.
Rodrigo Cambará, em O retrato e
em O arquipélago, será a
reduplicação quase que perfeita do bisavô, apesar de já ser um caudilho
ilustrado. Porém, mesmo Bolívar e Licurgo, filho e neto respectivamente,
apresentarão traços do Capitão Rodrigo. De certa forma, os valores caudilhescos
e machistas desse personagem cristalizam o ideal de hombridade vigente na
província até meados do século XX.
e) A cena espetacular da extrema-unção que o padre Lara oferece a
Rodrigo moribundo, exigindo antes que o seu amigo se arrependesse de todos os
pecados. Reunindo suas últimas forças, o Capitão Cambará faz uma figa ao
sacerdote que sai dali horrorizado.
f) Igualmente importante é a cena - já referida no resumo - do
duelo entre Rodrigo e Bento Amaral,
e a marca incompleta que o Capitão deixa no rosto do último.
g) A paixão de Bibiana
pelo gaudério é a melhor realizada entre todos os casos amorosos que povoam O tempo e o vento. Independentemente
dos adultérios de que é vítima, do abandono e do desprezo do marido pela vida
doméstica, ela continua amando-o como no primeiro dia em que o viu. "Queria vê-lo mais uma vez, só uma vez"-
pensa ela durante a Revolução e um pouco antes do último encontro amoroso, numa
sublime confissão de desejo e afeto.
h) O fato de Bibiana
reproduzir sua avó, Ana, tanto na obstinação, nos silêncios, no ódio à guerra e
às revoluções, na profissão de parteira e na lembrança dos mortos, dando
seqüência ao arquétipo feminino do romance.
4. A teiniaguá
Substrato histórico: a consolidação da vida urbana no RS. Duração: 1850-1855
Em 1850, Santa Fé já possui sessenta e oito casas e trinta ranchos.
Chama a atenção o magnífico sobrado construído por um nortista de origem
misteriosa, Aguinaldo Silva. Dele
também é a melhor fazenda da região, a do Angico. Porém a sua principal
atividade econômica é a agiotagem e muitas terras, inclusive a pequena
propriedade de Pedro Terra tinham
passado para suas mãos.

Ilustração: Herrmann Wendroth
Aguinaldo tem uma neta adotiva, Luzia, de esplêndida beleza e "modos de cidade": veste-se
bem, é culta e toca cítara. Desperta paixões, especialmente entre os dois
primos, Bolívar e Florêncio (filho de Juvenal Terra) que a disputam. Luzia
termina optando por Bolívar, filho
do Capitão e de Bibiana, herói
juvenil na guerra contra o tirano argentino, Rosas.
Bolívar está completamente enfeitiçado por Luzia. Atendendo a uma
determinação da própria jovem (que tem dezenove anos) marca-se o noivado para a
mesma hora em que um escravo, suspeito de crime hediondo, vai ser enforcado. Os
sinais de estranha doença começam a aparecer na moça que veio do Norte.
Também surge neste episódio um dos protagonistas mais importantes
de O continente, o Dr. Carl Winter, médico alemão, culto,
solitário, extremamente observador e um pouco bizarro, e que havia fugido da Alemanha
por razões sentimentais e políticas. Ele será uma espécie de
"comentarista" da vida cotidiana e dos costumes, tanto de Santa Fé
quanto da província de São Pedro. Não é errado considerá-lo como um
"alter-ego"(um "outro eu") de E. V.. Fascinado por Luzia (uma mescla de curiosidade e desejo),
ele a compara à lenda local da teiniaguá,
a princesa moura transformada pelo diabo numa lagartixa, cuja cabeça consiste
numa pedra preciosa de brilho ofuscante que atrai e cega os homens.
É o Dr. Winter o primeiro a perceber a doença da alma que corrói a
bela Luzia: a moça tem prazer com o sofrimento alheio. Na hora do enforcamento
do escravo, ela corre para a janela a fim de se deliciar com o espetáculo:
"Primeiro o rosto dela se contorceu num puxão nervoso, como se
tivesse sentido uma súbita dor aguda. Depois se fixou numa expressão de
profundo interesse que aos poucos foi se transformando numa máscara de gozo que
pareceu chegar ao orgasmo."
Por isso, casando-se com Bolívar,
uma mente singela, ela se aproveitará para atormentá-lo. No entanto,
contraditoriamente, Luzia tem momentos de ternura e alegria para com o marido,
estraçalhando, pouco a pouco, os seus nervos de homem enfeitiçado. Esta
alternância de loucura e fascinação, revela uma Luzia não apenas sádica, mas
também masoquista, porque há passagens em que ela parece se comprazer com o
próprio sofrimento. Bibiana, a
sogra, também percebe o que o Dr. Winter já enxergara e passa a odiar a nora.
Em 1853, Aguinaldo Silva cai do cavalo e fratura o crânio, sobrevivendo
ainda três dias. A neta acompanha-o, minuto após minuto, comprazendo-se com o
sofrimento do avô. Seu sado-masoquismo é visível. O nascimento de Licurgo Cambará, o filho do casal,
atenua brevemente a situação. Em seguida, deixando o nenê nas mãos de Bibiana, Bolívar e Luzia partem, numa viagem recreativa, para Porto Alegre.
Na capital da província uma epidemia de cólera dizima a população.
Em vez de retornar, o casal permanece no centro da grande epidemia. E. V. não narra
os acontecimentos na capital, mas meses depois, quando os dois voltam, Bolívar está tão destruído
psicologicamente que o Dr. Winter e Bibiana
intuem o que havia ocorrido: a euforia e o gozo de Luzia, vendo o terror de
todos diante da peste, deliciando-se com o desespero das pessoas que caíam nas
ruas, agonizantes.
Ao tentar rever o filho, Licurgo,
a teiniaguá é impedida por Bibiana e tem um ataque de fúria,
chamando a sogra de "cadela". Bolívar
então espanca a esposa e sai da sala, cada vez mais arrasado interiormente. O
Coronel Bento Amaral, aproveita-se
do contexto para vingar-se dos Cambarás, decretando a quarentena do sobrado.
Isto é, durante quarenta dias ninguém, a não ser o dr. Winter, poderia entrar
ou sair do casarão. Capangas dos Amarais cercam então o local para que a ordem
do caudilho fosse cumprida. Bolívar
- exasperado pelas circunstâncias - não suporta a prepotência de Bento Amaral e com uma pistola na mão
sai de casa, tentando romper a quarentena. Há um tiroteio e quando o dr. Winter
chega à janela vê Bolívar
"caído de borco, no meio da rua, com a cara metida numa poça de
sangue."
Note em A Teiniaguá
a) O caráter doentio de Luzia, indicando, de certa forma, que todas
as mulheres que ousassem quebrar o silêncio e a aceitação resignada da
dominação masculina, teriam um preço muito alto a pagar por sua autonomia.
b) A identificação - feita pelo Dr. Winter - entre Luzia e a lenda da teiniaguá - a
princesa moura transformada em lagartixa e que leva os homens à perdição.
c) A quebra da hegemonia masculina nas relações afetivas e sexuais.
Bolívar é um escravo de Luzia, em
proporção semelhante à prisão amorosa e social de que Bibiana e as demais mulheres sofriam em seus relacionamentos com os
homens.
d) A personalidade complexa do Dr. Winter, que, além de suas
penetrantes análises da vida provinciana, revela forte ambigüidade diante do
universo local. O que um europeu educado e sensível faz naquela sociedade
"tosca e carnívora, que cheirava a
sebo frio, suor de cavalo e cigarro de palha"? Ao mesmo tempo, aquele
mundo primitivo o prende com o fascínio de sua selvageria, com a beleza de suas
paisagens e com a disposição hercúlea de seus homens e mulheres que iniciam uma
nova sociedade.
e) De alguma maneira, o Dr. Winter é a expressão da acentuada
curiosidade européia pela vida nas regiões remotas, traduzida, por exemplo, em
centenas (ou talvez milhares) de viajantes cultos que estiveram no Brasil, no
século XIX, e que sobre suas viagens deixaram uma significativa quantidade de
belos relatos.
Repare numa dessas fascinantes observações do Dr. Winter sobre a
vida em Santa Fé, dirigidas ao intelectual alemão Carlos von Koseritz:
"Mein
lieber Baron. Faz hoje quatro anos que estou em Santa Fé. Já não uso mais chapéu
alto, minhas roupas européias se acabam e eu desgraçadamente me vou adaptando.
Sinto que aos poucos, como um pobre camaleão, vou tomando a cor do lugar onde
me encontro. Já aprendi a tomar chimarrão, apesar de continuar detestando essa
amarga beberagem. (...) Estes invernos rigorosos de Santa Fé, em que às vezes
sentimos mais frio dentro das casas que fora delas, me ensinaram a beber uma
mistura deliciosa. É cachaça com mel e suco de limão. Positivamente divino! Se
te contarem, Carlos, que morri embriagado numa sarjeta em Santa Fé, podes
acreditar na história, apenas com uma restrição: é que em Santa Fé não tem
sarjetas pela simples razão que não tem calçadas, como também não tem lampiões
nas ruas e como, em última análise, não tem nada. Talvez seja essa carência de
tudo que me fascina e me prende."
5. A guerra
Substrato histórico: a Guerra do Paraguai. Duração:
1869-1870
Semi-inválido, Florêncio
retorna da guerra quase em seu final. Através do Dr. Winter sabe do confronto
entre Bibiana e Luzia, dentro do Sobrado.
Sabe também que Luzia tem um tumor maligno no estômago e que cada mulher espera
a morte da outra. Enquanto isso, na fazenda do Angico, o adolescente Licurgo Cambará efetiva sua educação à
maneira rio-grandense, guiado por Fandango.
Típico gaúcho fanfarrão, exímio contador de histórias, conhecedor de casos e
lendas, expressando-se por ditados, tendo apurada memória por quadras, trovas e
modinhas, dono, por fim, de grande sabedoria campeira, Fandango é o professor
do seu futuro patrão. A partir dessas experiências gratificantes, - e tendo
como contraponto, na cidade, a sombria doença da mãe - Licurgo só se sentirá à vontade no campo, desenvolvendo uma
primitiva identificação com as lides pastoris e as coxilhas.
No Sobrado, Bibiana
consegue afastar os pretendentes de Luzia, revelando-lhes pormenores da
"loucura" da nora. Seu objetivo é impedir um novo casamento da jovem
viúva porque assim Licurgo herdará
sozinho todas as propriedades da mãe. O Dr. Winter acompanha a luta entre as
duas, mas não toma partido de nenhuma, embora sua maior intimidade com Bibiana. O episódio encerra-se sem que
a vitoriosa seja conhecida.
Note em A Guerra
a) A astúcia do narrador que começa o capítulo falando da Guerra do
Paraguai e, em seguida, abandona o conflito bélico para revelar a luta surda e
odiosa das duas mulheres pela posse dos bens e de Licurgo. A guerra entre nações transforma-se em guerra de mulheres.
b) A obstinação cruel de Bibiana
em destruir a nora, Luzia. Isso serve para quebrar uma certa idealização -
construída nos capítulos anteriores - a respeito das mulheres da linhagem
Terra.
c) A cena terrivelmente dramática em que Luzia, tocando cítara em
surdina, diz várias vezes a Licurgo
que vai morrer por causa do tumor em seu estômago e que ele ficará abandonado,
completamente sozinho, ao contrário de outros jovens que têm pai e mãe, levando
o rapaz à exasperação.
d) A figura de Fandango, calcada em Blau Nunes, de Simões Lopes
Neto. Depositário de todo um mundo gauchesco de referências, de uma linguagem
de rica originalidade, centrada em ditos e provérbios regionais, ele encarna a
sabedoria popular dos homens do campo. É com ele que Licurgo faz sua educação informal.
6. Ismália Caré
Substrato histórico: o surgimento da oposição republicana e abolicionista. (PRR -
Partido Republicano Rio-grandense). Duração: 1884
Em 1884, Santa Fé é elevada à categoria de cidade. O Coronel Bento Amaral ainda domina
politicamente, mas Licurgo Cambará
representa a oposição republicana que já não aceita a hegemonia da oligarquia
monarquista. O ódio entre as duas "casas" fica latente numa cavalhada
festiva, em que se enfrentam "mouros" e "cristãos", e o que
deveria ser encenação quase vira um confronto sangrento.
No plano pessoal, Licurgo
vai se casar com sua prima Alice Terra
(filha de Florêncio). A irmã dessa, Maria Valéria Terra também o ama, mas
sufoca seu afeto proibido. Independentemente dos amores que desperta, o Cambará
sente-se preso sexualmente a Ismália Caré,
filha de um agregado pobre que vive num rancho, na fazenda do Angico.
Sob a influência de um bacharel baiano que vive em Santa Fé,
Toríbio Rezende, Licurgo torna-se
republicano e abolicionista fanático, libertando seus próprios escravos. Na
noite da libertação, ele vem a saber que Ismália
Caré está grávida e decide que a amante "vai botar o filho fora",
isto é, que precisa abortar.
Além disso, há referências neste episódio a respeito da morte de Luzia. Surge também um personagem interessante,
o sacerdote Atílio Romano, italiano
de nascimento e formação, brasileiro de coração, magnífico orador e
intransigente defensor da miscigenação étnica e da paz entre os grupos que se
hostilizam na província.
Note em Ismália Caré
a) O quadro vivo da contenda política entre as frações dirigentes
(Amaral versus Cambará), cujos rancores e ódios já estão latentes antes da
República e do triunfo do castilhismo.
b) A ambigüidade moral de Licurgo perante a sua futura esposa,
Alice, pois não pretende se livrar (nem se livrará) da amante, Ismália Caré.
c) A sua ambigüidade ética no caso da libertação dos escravos.
Apesar da grandeza de seu gesto, subjetivamente ele sente raiva e irritação com
"aqueles negros" que pisam na sala do Sobrado, alguns aturdidos e
outros, arrogantes.
d) O surgimento de Maria
Valéria Terra, cunhada de Licurgo,
de grande importância em episódios seguintes.
7. O Sobrado
Substrato histórico: toda a ação transcorre em três dias de junho de 1895, nos
estertores da Guerra Civil entre republicanos
("chimangos") e federalistas ("maragatos").

Ilustração: Herrmann Wendroth
Vencendo seu medo, o maragato José
Lírio chega na torre da igreja, de onde se domina o quintal do Sobrado e,
conseqüentemente, o poço de água que garante a sobrevivência dos Cambarás e de
seus homens. No entanto, ao pensar nas mulheres e nas crianças que estão na
casa fortificada, José Lírio acaba errando intencionalmente o tiro no chimango
que, em desespero, tentava buscar água no poço para matar a sede dos sitiados.
Esta capacidade de tolerância e de compreensão "daqueles que estão no
outro lado" não são compartilhadas por Licurgo Cambará, que se recusa a pedir trégua aos maragatos, tanto
para cuidar dos feridos e sepultar os mortos, quanto para atender sua esposa, Alice Terra, que está em trabalho de
parto e necessita de urgentes cuidados médicos. Inflexível e autoritário, Licurgo não aceita os olhares
recriminatórios do sogro, Florêncio
Terra e da cunhada, Maria Valéria, mesmo que a esposa e a criança corram perigo
de vida. Para ele seria um ultraje à honra solicitar a complacência dos
inimigos.
O resultado de sua intolerância é que a menina nasce morta e é
enterrada no porão da casa, cheio de ratos. Também o sogro, Florêncio, provavelmente enfraquecido -
durante o cerco não havia mais nada a comer senão laranjas - termina morrendo
no final do episódio, logo após o fim do cerco do Sobrado, com o abandono da
cidade pelas forças maragatas.
Na última página, Bibiana
Terra já catacega e meio caduca, pede silêncio a Fandango, que ia lhe levar
a notícia da morte de seu sobrinho, e apontando para janela onde o vento uiva,
diz: "Está ouvindo?".
Note em O Sobrado
a) O brilhante jogo entre vida e morte, representado pelo parto de
um lado e pela guerra, de outro. Torna-se evidente o pacifismo do autor, pois o
machismo, o sentido de honra e a inflexibilidade ideológica de Licurgo Cambará são completamente
impugnados no andamento do episódio.
b) A "covardia" de José Lírio que, na verdade, obriga-o a
superá-la através da legítima coragem, produzida pela vitória sobre o medo.
Além disso, o referido protagonista rompe com a intolerância e com o
radicalismo políticos, mostrando-os como repugnantes à consciência humanista.
c) Não por acaso o começo de O
continente (O Sobrado I) se dá com ele, José Lírio, ou seja, um indivíduo
que coloca o respeito à condição humana acima das ideologias e interesses que
arrastam os homens para a guerra. Este livro sobre a guerra começa, na verdade,
com um libelo a favor da paz.
d) O aparecimento - ainda que de modo periférico - dos dois irmãos,
Toríbio e Rodrigo, tendo este último papel decisivo nos livros subseqüentes.
e) A presença, agora mais intensa, de Maria Valéria Terra com idêntica função de Ana Terra e de sua tia-avó, Bibiana.
A mesma força interior, a mesma resistência silenciosa, o mesmo desprezo pela
violência guerreira dos homens.
f) A particularização - através do cerco do Sobrado - da mais
sangrenta e cruel de todas as lutas rio-grandenses, a Guerra Civil (1893-1895)
com seu terrível rosário de crueldades, degolas, estupros e terrorismo de
Estado, este desenvolvido pelos autodenominados "progressistas" da
época: Júlio de Castilhos e sua horda republicana.
UMA ANÁLISE
DE O CONTINENTE
Flávio Loureiro Chaves
Professor de Literatura
Sul-Rio-Grandense da UFRGS
"Uma crônica de sangue pontuada por sucessivas guerras, eis
o cenário onde brota a gênese da Província de São Pedro. Ao início de O continente, no episódio de Ana Terra, o espaço físico foi inteiramente
destruído após um ataque de castelhanos que massacraram todos os homens válidos
da fazenda de Maneco Terra. Sob a
imensidão do campo, duas mulheres e duas crianças sepultam os seus mortos.
Desses escombros surge a personagem de Ana
Terra, armada de uma confiança absurda em si mesma, que se integra na
caravana pioneira para fundar, muito distante, a vila de Santa Fé. Com ela
segue o filho, que será o pai de Bibiana;
e assim fica assegurada a continuidade da vida. A mesma intriga, distribuída
por diferentes níveis de temporalidade, repete-se várias vezes na sucessão de
gerações de Terras e Cambarás. (...)
“Na personagem Ana Terra
se reedita o primeiro dia da criação, a imagem primitiva da fecundação,
enquanto antítese da morte. Diz Erico: 'Penso nela como uma espécie de
sinônimo de mãe, ventre, terra, raiz, verticalidade, permanência, paciência,
espera, perseverança, coragem moral.'
“Há um estranho paradoxo em O
continente. Essa epopéia, cuja linha episódica foi traçada no encadeamento
dos feitos guerreiros, parece ter sido escrita para reafirmar a insanidade da
guerra. Enquanto a seqüência cronológica avança mediante lutas fratricidas
entre Cambarás e Amarais, a visão de mundo do autor, sua crença nos valores
permanentes da vida, está expressa na saga de Ana Terra e nos silêncios de Bibiana."
Árvore
genealógica de O continente :

Getúlio Vargas, o
gaúcho que mudou o Brasil, governou o país durante duas décadas do séc.XX. Chegou ao poder numa revolução, manteve-se
através de um golpe, e retornou nos “braços
do povo”, conjunto de circunstâncias singulares na história contemporânea
mundial tornando-se uma das mais importantes, senão a mais destacada
personalidade da história brasileira contemporânea suscitando, por assim dizer,
como um “Capitão Rodrigo” moderno, um bairrismo contra os gaúchos. Veja mais clicando aqui ÿ
Conheça
o Porto-alegrense que inventou o rádio e a TV clicando aqui ó
Sobre a Dualidade
do Universo: Tudo
e todos que nos cercam, e nós mesmos... Percebê-la: Decisivo passo na Jornada do Saber: Clique aqui
ó ![]()
Conheça o excelente ensaio de Claudia
Wassermann
Professora
de História Contemporânea da América
Latina na UFRGS e Doutora em História
Social pela UFRJ
Sobre Getúlio Vargas, clique aqui ó
A
influência da Faculdade na vida Social e política do RS e do Brasil tornou-se
notória, principalmente na fase “áurea”
– até os anos 50. Na segunda metade do século XX, especialmente a partir dos
extremos desencadeados pela Revolução de
64. Primeiro, a restrição à
liberdade de informações e conseqüentemente de
pensamento prejudicou a
qualidade do ensino. Receosos de dizerem o que pensavam, os professores não
conseguiam passar aos alunos a plenitude cultural. Depois, a nova situação
política liberal demais prejudicou a autonomia universitária. Essa situação
começa a mudar a partir de década de oitenta com uma nova geração de
professores. A “Casa de André da Rocha”
– alusão a um dos principais fundadores da Faculdade, um dos pilares da
construção e doador do terreno sobre o qual foi erigida a secular instituição,
- possui formandos com destaque além de Getúlio Vargas: João
Neves da Fontoura e João Goulart na
vida política. Na magistratura, vários
Presidentes do Tribunal de Justiça. Na
docência, Armando Câmara e Ruy Cirne Lima, que também mereceu
destaque na doutrina, e Maurício Cardoso,
na advocacia. Conheça a história da Faculdade de Getúlio
clique aqui è
Aperfeiçoando para 1 Mundo Melhor:
Histórica Faculdade de Direito da
UFRGS e
a importância
gaúcha clique aqui ó
Como e porque ser professor ? clique aqui †
Juristas gaúchos completos: Exemplos de
Athos clique aqui € e Clóvis clique aqui‚
A importância gaúcha na história do IBDP Instituto Brasileiro de Direito Processual clique aqui
§
________________________________________________
Centenas de Teses
Jurídicas gaúchas novidades toda semana clique aqui ó
________________________________________________
Conheça nossas páginas especiais e os variados enfoques da Sabedoria:
è Sabedoria
aplicada à elaboração
das decisões judiciais clique aqui &
è Sabedoria
no Princípio Universal da Evolução clique aqui ñ
è Sabedoria
na Ética
à clique aqui F J
è Sabedoria
na fusão do espiritual + material clique aqui ÿ
è Sabedoria
em sermos Mestres e Discípulos uns dos outros clique aqui ó
è Sabedoria
no reencontro do Místicismo e Ciência clique aqui ÿ
è Sabedoria
no Shibumi o caminho da perfeição na simplicidade clique aqui ÿ
è Sabedoria
de Confúcio clique aquiû
è Sabedoria
na evolução cultural clique aqui þ
è Sabedoria
no uso da Linguagem
instrumento jurídico clique aqui m
è Sabedoria
no Princípio
da Dualidade - opostos complementares clique aqui
Idolatria
no desporto e história do Futebol clique aqui
n
Novo ramo o Direito
Desportivo
clique aqui ó
Ligações entre místico e desportivo clique aqui
ó
Filosofia e prática
das Artes Marciais clique aqui C
Meditar e perguntar clique aqui ó Aprenda mais e melhor clique aqui ó
Viver mais e melhor
com saúde e bom humor clique aqui ƒ
Lutando pela
dignidade na Advocacia Pública clique aqui…
Desenvolvimento Místico clique aqui ó
Apometria clique aqui è
Grupo Espiritualista Casa
de João Pedro clique aquiÿ
* Aperfeiçoar
é construir 1 Mundo
Melhor. . *Site em construção com
visitas no domínio próprio desde 14 de dezembro de
2003.quando nossas páginas em variados sites somavam 136.706.382 visitas. Impressionante ? Em novembro de 2004 um dos Grupos Temáticos ultrapassou 20 BILHõES de visitas? Conheça nossos Grupos Temáticos clicando aqui ó